De acordo com o crítico de cinema Marcelo Forlani, desde Branca de Neve e os Sete Anões, em 1937, as animações criadas nos estúdios do Mickey embalaram as matinês de crianças de todas as idades. Mas com o avanço da computação gráfica, esses contos de fadas deram lugar a universos diferentes, com histórias estreladas por brinquedos, insetos, carros, monstros, peixes e até robôs. Porém, pergunte a qualquer menina se as princesas são coisas do passado e ela certamente responderá que não. E é seguindo a tradição que teve como última herdeira Mulan, em 1998, que o estúdio apresenta agora a sua nona princesa, Tiana.
A animação, A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog) é um conto de fadas musical ambientado em Nova Orleans, na década de 1920, época chamada de Era do Jazz. Baseado numa história original escrita pelos aclamados cineastas John Musker e Ron Clements (de ‘A Pequena Sereia’, ‘Aladdin’ e ‘Hercules’), que também assinam a direção do filme. Conta uma história de amor inesquecível no coração dos místicos pântanos da Louisiana às margens do poderoso rio Mississipi, com a participação de um crocodilo cantor, com toques de vudu e os encantos da cultura Cajun.
Mas o que Indaiatuba tem haver com esse mundo encantado de mais um clássico da Disney? Pois bem, os indaiatubanos, Israel Oliveira dos Santos, Carlos Eduardo Rosenfeld Gonçalves e Fabiana Asai, participaram da produção do longa, pela HGN Produções. A produtora especializada em animação 2D e 3D, foi fundada pelo animador Haroldo Guimarães Neto em 1989 e foi escolhida pela Disney para participar da produção de ‘A Princesa e o Sapo’. “Fomos selecionados juntamente com outros dois estúdios (Canadá e Orlando/USA) e nossa participação envolveu a parte de intervalação (desenho de movimentos intermediários), desenho clean-up/traço final, pintura e composição digital utilizando softwares e hardware de ultima geração” comenta o fundador da HGN, Haroldo Guimarães Neto.
Indicados por profissionais da área, os três indaiatubanos se encontraram no estúdio da HGN e mostram que são realmente bons nos traços e nas habilidades em 2D. Os artistas Israel dos Santos e Fabiana Asai ficaram no departamento de clean-up. “Nós tínhamos que interpretar a intenção do animador e padronizar os traços dos personagens, fazendo o traço final, que é o que vai para a tela, primeiro traçamos em vermelho bem fraquinho e em seguida contornamos com uma lapiseira”, explica Santos. Já o artista Carlos Gonçalves ficou na pintura digital (ink and paint). “Chegava uma cena do filme e com o uso de um software primeiramente eu tinha que limpar algumas sujeiras decorrentes do escaneamento e ajustar alguns traços do desenho. Feito isso, passava para a etapa de colorir digitalmente os personagens e objetos da mesma”, detalha Gonçalves. Ao total em todas as produtoras, foram mais de 700 pessoas envolvidas com o filme.
O mercado de animação 2D está em expansão e ainda é pouco explorado no Brasil. “Esse tipo de trabalho, tanto para aperfeiçoamento como para valorização, ainda é melhor no exterior, mas acredito que o mercado se amplie por aqui, como está acontecendo com a animação 3D”, comenta o artista, Gonçalves.
Para ter ideia do trabalho árduo que é produzir uma animação em 2D, foram precisos dez meses de trabalho para finalizar os 12 minutos de filme no qual a produtora de São Paulo ficou responsável. A animação refere-se ao processo segundo o qual cada fotograma de um filme é produzido individualmente, podendo ser gerado de diversas maneiras, seja por computação gráfica, uma imagem desenhada repetidamente fazendo-se pequenas mudanças a um modelo, fotografando ou escaneando o resultado. Quando os fotogramas são ligados entre si e visto a uma velocidade de 16 ou mais imagens por segundo, há uma ilusão de movimento contínuo (por causa da persistência de visão). “Um filme é feito por diversos frames, o olho humano enxerga até 24 frames por segundo e para entender o movimento perfeitamente pode ter 12 franes no segundo e assim vai mudando a quantidade conforme o movimento desejado”, explica Israel dos Santos. No entanto foram necessários aproximadamente 17 mil desenhos para finalizar os 12 minutos do filme ‘A Princesa e o Sapo’ na produtora HGN.
A nova animação da Disney estreou no cinema em dezembro de 2009 e consolidou a volta da animação 2D nas telonas. “Acredito que o público atual tenha mudado um pouco, hoje em dia a preferência é pelo 3D, mas com o filme ‘A princesa e o Sapo’, a Disney voltou as origens, porém de maneira diferente sem deixar o estilo musical e isso é inovador e fico feliz de poder participar desta produção”, salienta o artista, Israel do Santos. “Eu acredito que apesar dos filmes em 3D serem muito bem feitos, cheios de detalhes, não tem o charme da animação tradicional”, complementa a artista Fabiana.
Em janeiro ‘A Princesa e o Sapo’, foi indicado ao Globo de Ouro como melhor animação com mais quatro desenhos (Tá chovendo hambúrguer, Coraline, O fantástico sr. Raposo e Up - Altas aventuras). Você que ainda não teve o privilégio de contemplar mais um clássico Disney, não precisa se desesperar. A previsão para o lançamento do DVD é em março, então aguarde um pouco e confira alguns dos traços bem delineados feitos pelas mãos de indaiatubanos talentosos.
Laís Fernandes - jornalista